O inacreditável aconteceu quase no final da aula magna de Tarso Genro, governador do Rio Grande do Sul, quando o próprio começou a falar de Nelson Mandela, um som estranho no ar - um engasgo, a princípio de leve, mas os soluços denunciaram, ele chorava e fungava como qualquer donzela num filme de sessão da tarde.
A cena foi digna de uma comédia de Mel Brooks, no entanto o público, na maioria universitário, sensibilizado, aplaudia em pé e nem desconfiava das lágrimas de crocodilo, honrado em presenciar tamanha emoção, só faltava consolá-lo.
Este grand finale do discurso teve outros momentos recheados de artimanhas. Voltemos a fita ao início, Porto Alegre, às 10horas da manhã, da quarta-feira ensolarada do dia 6 de abril de 2011.
Ao atravessar o corredor de seguranças em direção ao salão de Atos da UFRGS, o Governador se vê interpelado por um estudante de ciências sociais a respeito do piso nacional dos professores, promessa de campanha que continua em aberto, ao que Tarso responde cheio de razão com o olhar fixo no interlocutor - “já está sendo encaminhado”, resta saber encaminhado pra onde? Ao que parece para o brejo.
Entre tagarelices e sorrisos, Genro e o reitor Carlos Alexandre Netto, sentados na mesa central davam a impressão de estarem em casa com a televisão ligada, tal a displicência em relação ao apresentador, um mero coadjuvante, diante do extenso curriculum do convidado principal.
Depois de subir ao palanque, ler, ler e ler e no final choramingar pelo Mandela, vieram as perguntas e as habilidades do calejado político ao discorrer sobre drogas; enfatizou que no seu tempo de militância só deixou de fumar maconha, porque seria mais um item na contravenção e não por falta de vontade, pois “dizem que é muito saborosa”. Risos dos alienados, ponto pra ele.
Numa brecha, entre uma questão e outra, uns quatro alunos passaram com uma faixa, no corredor central da plateia, num protesto contra a construção de novas barragens, da quais Tarso se coloca a favor, porém num golpe de mestre e perante o silêncio constrangedor criado depois dos gritos de ordem dos jovens, o astuto Tarso, como se não fosse com ele, aproveitou a deixa e pediu - “vamos aplaudir”, e os súditos obedeceram.
Encerrada a sessão por volta das 11h30min, restaram perguntas, faltaram respostas, mas o que se viu em termos de teatralidade do governador foi digno de novela mexicana, assim como o comportamento de uma classe, a estudantil, outrora tão revolucionária, agora virada em capacho.